segunda-feira, 21 de abril de 2014

"Invencível" Armada Espanhola


   Inserido dentro do contexto da Guerra dos Trinta Anos, esse momento é de extrema importância para a história brasileira. Mesmo assim, não damos o devido valor ao poente dos impérios ibéricos.

   O título de invencível, na verdade, é uma provocação inglesa, pois o medo que provocava não se traduziu em resultados, nem de perto, foi um dos maiores vexames da história. A frota gigante da Espanha foi um empreendimento tão dispendioso que só pôde acontecer graças a fatores históricos ao longo de um século e esse é o foco do nosso texto. Como a Espanha se tornou tão poderosa, qual o motivo e quais as oportunidades que possibilitaram o momento histórico?


Fator por fator

Início da expansão ultramarina Ibérica
   Em 1415, a tomada de Ceuta pelos lusitanos se traduziu no começo do que iria culminar na era de ouro da Espanha, já que foi o estopim da corrida naval e Portugal passaria para a coroa dos Habsburgos espanhóis em 1580.

Os Reis Católicos
   Graças a eles, Castela se pôs a terminar a reconquista da península contra Granada e se expandiu para o Norte da África. Mais importante que isso, o fervor religioso levaria a cruzada contra os otomanos, fator crucial que abordaremos melhor depois e contra o anglicanismo inglês.
   Foi sob a coroa de Fernando e Isabel, também, que Colombo chegou às Américas, de onde viriam os metais que a Espanha gastaria sem medidas para manter suas posses infindáveis.
Além disso, o fervor religioso seria a motivação para a formação da Santa Liga, mais um fator intrincante.

União com Aragão
   Junto ao território basco, vieram suas posses imperiais das Ilhas Baleares, Sardenha, Sicília e Nápoles. Com isso, somariam-se depois à esquadra invencível algumas Galeaças (barcos maravilhosos em combate de abordagem, mas não em mar aberto).

Sacro Império
   Com o título de imperador concedido a Carlos I da Espanha, que juntou as posses de sua família nos Países Baixos, Franco Condado, Áustria, Estíria, Caríntia, Tirol e até Milão, o rei da Espanha passou a ser o mais poderoso e influente da Europa, senão do mundo, mas governava terras de luteranos e judeus, fatores complicantes para manutenção.

   Já foi assunto de uma postagem anterior. Aqui, vamos nos ater ao fato que foi para essa batalha que seria construída a armada. No Arsenal de Veneza foi montada a maioria das grandes máquinas de guerra aquática que tão bem funcionaram no Mar Mediterrâneo e, se lá tivessem permanecido, invencível poderia ter sido a armada por muito tempo.

União Ibérica
   Com a crise sucessória de 1578, Felipe II demonstrou o seu poder para tomar para si a coroa portuguesa e anexar à sua já numerosa frota alguns dos maiores galeões de guerra do mundo, os lusitanos. Não obstante, vendo que as naves portuguesas eram de castelos baixos, provavelmente sem entender que era isso que tornava esses galeões tão insuperáveis, mandou erguer verdadeiras muralhas de madeira no entorno dos navios para que eles ficassem mais altos e, assim, tivessem ampla vantagem na batalha de abordagem, como a que se instalou em Lepanto. Não é necessário dizer que isso deve ter deixado os barcos como Bonecos de Olinda a navegar cambaleantes e lentos.

Inquisição Espanhola
   Foi a necessidade de controlar o levante nas posses dos Países Baixos por conta dos hereges e a ajuda inglesa aos insuflados que levou a frota a se aventurar no Atlântico. A Espanha se punha em guerra com a Inglaterra anglicana e um império tão grandioso e orgulhoso como o Espanhol não poderia responder a tal afronta de outra forma a não ser a invasão.

A armada em números

A Enjambrada Armada
   Diferente do que conta a história, a armada espanhola nem mesmo era espanhola, mas napolitana e portuguesa em essência. Muitos dos galeões espanhóis eram mercantes adaptados com canhões de terra. Os bons navios eram as galeaças napolitanas em número de quatro, mas que não surtiram efeito em batalha de mar aberto contra navios ingleses ligeiros; e os nove galeões portugueses, esses sim armados até os dentes para disparar a longa distância, mas extremamente lentos e ineficientes em batalha por conta das adaptações feitas pelos espanhóis, além do comando de oficiais castelhanos sobre marujos portugueses que mal se entendiam. Quem leu o livro A Outra Mão de Lepanto sabe como os espanhóis eram vistos pelos estrangeiros e o que poderia acontecer entre os marujos por causa disso. Então, vamos aos números,

Espanha 130 navios, sendo:
              9 galeões portugueses
              4 galeaças napolitanas
              restante de pequenos navios bascos e castelhanos e galeões mercantes improvisados

Inglaterra 197 navios, sendo:
                34 galeões principais da Royal Navy
                restante de navios de guerra menores


O mito da derrota humilhante

   Não houve, bem dizer, uma derrota em batalha de uma esquadra superior contra uma inglesa pequena e indefesa. Na verdade, a armada inglesa era superior em navios de guerra propriamente, em número de trinta e quatro, além de mais velozes e da navegação em mares conhecidos. Mesmo assim, os leves galeões ingleses, pré-fragatas, não puderam entrar em combate contra os monstruosos galeões portugueses em formação. Apenas ao isolar uma ou outra nave é que puderam as vencer.
   A derrota em si aconteceu por uma soma de fatores, como sempre acontece. Foram as ordens descentralizadas de comandantes de diversas origens, a sequência de tempestades e o grande contingente humano carregado e que não teve serventia alguma sem o combate aproximado.
   A maior parte das baixas foi obtida após o contorno das Ilhas Britânicas, quando houve mais tempestades.


O fim da Invencível Armada?

   Ao contrário do que possa parecer, a história não acaba aqui. No ano seguinte, em 1589, uma incursão inglesa contra Lisboa por mar foi tão mal sucedida quanto a histórica batalha de 1588 e as forças se equilibraram nos mares. A Inglaterra passou a apoiar o corso (pirataria legalizada/terrorismo) e os ibéricos tentaram construir novos navios, entre eles o Madre de Deus, assunto para outra postagem. A guerra ainda levaria anos para acabar e Portugal, que nos interessa, entrou de gaiato nessa guerra e nunca seria ressarcido das posses perdidas para seus históricos aliados ingleses.




Atenciosamente.

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Que espectacular descrição, necessariamente resumida, dos factos da batalha. Posso indicar que o navio Português São Martinho, a quem os espanhóis muito criticam, mas não tinham nada de igual, sofreu 300 tiros directos, e não só não afundou como regressou ao seu porto. As baixas maiores sofridas pelos portugueses, deram-se quando um dos navios naufragou na costa Holandesa sendo a sua tripulação massacrada pelos locais. Houve também demasiado tempo de espera das 3 armadas, sim pelo menos eram três, em Lisboa, onde só aos marinheiros Portugueses era permitido desembarcar enquanto esperavam, nem aos espanhóis era dado esse privilégio, a Monarquia Dual obrigava à lealdade ao rei, a noção de honra da época isso impunha, bem ou mal o rei era também rei de Portugal. Mas era mal visto em relação aos aos espanhóis e estes tiveram que se manter nos navios deles. Houve muitas doenças a bordo ainda antes da Armada partir, desacatos e brigas, além de confusões sobre as ordens. foi o somar de tudo isto mais o que explicou que estará próximo dos factos que ocorreram naqueles dias.

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