sábado, 2 de março de 2013

O Arsenal de Veneza

Como fossemos colonizados por lusitanos, sentimos esse orgulho histórico pela aventura de navegadores como Bartolomeu Dias e Vasco da Gama que, ao cruzarem o Cabo das Tormentas, trariam a era de ouro portuguesa.
Para o povo de uma cidade específica, Veneza, a realização do Périplo Africano pode ter marcado o fim de um processo que poderia ter levado a uma Revolução Industrial adiantada em alguns séculos e que teria início no Arsenal de Veneza.

Portões Principais no século XVIII, as estruturas Neoclássicas, vindas da Grécia, foram perdidas

O principal estaleiro da República de Veneza tem sua fundação, provavelmente, ainda no século VIII, quando a região estava sob domínio bizantino. Era apenas o início da tradição naval Veneziana. No século XII é que teve início a construção, já com sua independência política, do Arsenal de Veneza, influenciado por técnicas do oriente islâmico, que se prova na origem da palavra arsenal (do árabe, al Sina'a: estaleiro) e pelo profundo contato com o comércio asiático, fator que trouxe o desenvolvimento pujante da pequena república.

Seu pequeno tamanho, desde o início, levava a necessidade da superioridade naval. De difícil invasão por terra, uma grande frota era a proteção que Veneza precisava para transformar-se num império. Com posses no Adriático, de onde trazia produtos como a seda e as especiarias a preços exorbitantes para praticamente toda a Europa Mediterrânea e para o Norte, via Liga Hanseática, a cidade estado reuniu, pela primeira vez na história ocidental, as características necessárias para um cenário de Revolução Industrial.

Veneza e Gênova competiam para levar os produtos orientais para todo o Mediterrâneo e para o Atlântico, de Lisboa a Bruges, onde negociavam com a Liga Hanseática.

Não apenas a bonança econômica traz o desenvolvimento tecnológico, mas a concorrência e a corrida armamentícia entre Veneza e Gênova e, depois, os Otomanos, levaram ao desenvolvimento das técnicas de construção naval avançadas encontradas no Novo Arsenal, como a pré-fabricação da quilha, antes do casco. Inicialmente construído no século XIV, no contexto das guerras entre Gênova e Veneza pela supremacia do comércio mediterrâneo, trouxe, ainda cedo, armas como a bombarda a bordo das naves de Veneza, além de permitir a fabricação de alguns dos maiores navios da época. Seu poderio superior seria provado, pela primeira vez, na Batalha de Chioggia, em 1380, onde derrotaram definitivamente os genoveses. Tinha início a era de ouro do monopólio veneziano.

Veneza, com suas vias hídricas, só precisava da força naval para se tornar quase impenetrável.

No século XV, porém, uma nova ameaça surgiu vinda do Bósforo: os Turcos Otomanos. Com muita gordura para queimar, Veneza pôde financiar a construção do Novíssimo Arsenal. O sistema de linha de produção tornaria possível a entrega de navios DIARIAMENTE. Os milhares de funcionários do Arsenal (mais de 16000) eram responsáveis não só pela produção naval em massa, mas pela fabricação de armas e, ainda mesmo, de tijolos. Nas grandes instalações de Arsenal seriam desenvolvidas as fortalezas flutuantes conhecidas como Galeaças, além dos Galeões que dominariam os mares além das Colunas de Hércules (estreito de Gibraltar).
Em 1571, Veneza teria papel crucial na vitória na Batalha de Lepanto, que seria a virada no conflito contra os Otomanos. A República poderia, finalmente, voltar ao seu sistema de comércio com o Oriente, não fossem os portugueses terem aberto concorrência em 1488. A compra de produtos das Índias e da China realizadas no Mediterrâneo dependia de grandes quantidades de intermediários, tendo desvantagem acentuada com o comércio direto dos lusitanos, que possuíam entrepostos em todo o percurso e até mesmo no Japão. O comércio via Panamá e Manila dos Espanhóis seria mais um duro golpe.

Napoleão Bonaparte viria a conquistar a cidade que, desde então, nunca mais recuperaria sua autonomia. Passada para Áustria e, depois, para a Itália.
 Um complexo industrial daquele porte só se veria novamente na Inglaterra Industrializada do século XVIII, inclusive, a cidade atrairia milhares de visitantes ingleses durante o auge do poderio britânico, curiosos para aprender o sistema de produção que os inspiraria em sua versão de Revolução Industrial. E, como a história é contada pelos vitoriosos, todos nós sabemos que a Inglaterra foi quem criou a Divisão do Trabalho e a Revolução Industrial, etc... tsc tsc. Como se um processo tão complexo fosse possível de ser realizado do zero, em poucos anos, por um "povo superior".


Atenciosamente.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Meteoros - História da Meteorítica

Essa semana, o mundo foi surpreendido pela notícia de um meteoro de 10 a 40 toneladas que passou muito perto da Terra na Rússia. Alguns fragmentos menores chegaram a atingir o solo. O rastro no céu, assim como a explosão causada quando a rocha metálica desacelerou abaixo da barreira do som foram captados por vídeos amadores, que constataram o poder destrutivo do fenômeno: 25 milhões de Euros, principalmente em vidros quebrados, além de 1200 feridos indiretamente.

Meteoros, Meteoritos e Estrelas Cadentes chamam a atenção de nossos pares desde a Pré História, além de terem papel crucial no desenvolvimento da tecnologia de trabalho com metais.

É sabido que índios na América do Norte usavam meteoritos metálicos para fundirem suas armas, e é desse fato que surge a ideia de que nossos ancestrais pré históricos fariam o mesmo, pois não havia fonte mais fácil de metais que as estranhas rochas que encontravam perdidas no chão.
Na Grécia, o filósofo Diógenes da Apolônia chegou a teorizar que o fenômeno consistia em rochas que caiam do céu e atingiam lagos e o mar, o que tornava impossível sua localização. Porém, por muitos Séculos foram configuradas como meros fenômenos atmosféricos, como a chuva e os trovões, que seriam criados a partir das nuvens, ou ainda que seriam fragmentos de explosões vulcânicas.

Mesmo após a invenção do telescópio, a comunidade científica acreditava que o espaço interplanetário era vazio, alinhados com a teoria de Isaac Newton. Já no século XVIII é que começaria o desenvolvimento da ciência da Meteorítica, mas demoraria anos para que se empenhasse alguma credibilidade às novas evidências.

Em 1772, o explorador Peter Pallas descobriria, na Sibéria, uma rocha de metal com gemas incurstradas que a população local dizia ser caída dos céus. Talvez tenha sido um dos primeiros a defender oficialmente a a etiologia cósmica dos meteoritos.

Florens Chladini, apoiado por Pallas, publicou a primeira teoria de rochas provenientes do espaço interplanetário. Pela obra "Sobre a Origem do Ferro de Pallas e outras similaridades a ela, e sobre alguns fenômenos naturais associados" de 1794, ficou conhecido como Pai da Meteorítica. Infelizmente, para a época, sua obra não foi levada a sério.

A primeira chance de provar a teoria ocorreu um ano após a publicação. Na Inglaterra, mais precisamente em Wold Cottage, caiu um pedra de 25Kg, de liga semelhante ao Ferro de Pallas e de outros citados na obra de Chladini. Essa análise foi realizada por Esward Howard, químico britânico. Seria o início da popularização da Meteorítica na comunidade científica.

Ainda assim, muitos encontravam-se descrédulos. Foi em 1803, em L'Aigle, França, que o físico Jean-Baptiste Boit analisou uma chuva de milhares de meteoritos de composição semelhante às anteriormente encontradas. Não havia dúvida de que a meteorítica merecia atenção.

Como se pode observar, fenômenos como o ocorrido na Rússia sempre fizeram parte da nossa história, mas nunca foram documentados e capturados como o dessa semana. A era da informação instantânea nos leva a superestimar fatos, por isso precisamos de critério ao analisar eventos e mensurar suas proporções.
Em 1908, por Exemplo, um evento de maior escala atingiu Tunguska, também na Rússia, mas a tecnologia da época não proporcionou o conhecimento necessário para o seu esclarecimento total, levando a inúmeras teorias, algumas totalmente infundadas. Mesmo no Brasil, um evento de magnitude semelhante ocorreu perto do rio Curaçá em 1930. Um missionário, poucos dias depois, recolheu o relato de pessoas do local, todas muito assustadas. Em 1997, uma expedição chegou a encontrar a suposta cratera, hoje alvo de muitas pesquisas mas, por ter sido em um local tão inóspito, o fato ficou quase esquecido. Talvez, com o conhecimento adquirido hoje, possamos até mesmo descobrir melhor o que ocorreu no início do século passado. Essa é a ciêcia da Meteorítica, em desenvolvimento constante e auxiliar na explicação do passado e do futuro.

Atenciosamente.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Breve História do Papado - II

Continuação de Breve História do Papado - I

Para continuar a postagem, inicio com dados que obtive durante a pesquisa e que são muito ilustrativos para imaginar a época que descreverei. 5 Papas abdicaram; 21 morreram como mártires e outros 9 sobre martírio; 4 faleceram exilados ou aprisionados; 6 foram assassinados e 2 mortos durante revoltas; existiram nada menos que 37 antipapas.

Isso se deveu, em parte, à grande influência externa nos assuntos da Cúria. Ora os Bizantinos, ora o Sacro Imperador, ora a França, todos queriam pôr, no papado, alguém de confiança e que os favorecesse, sem se importarem com os meios.


O grande Cisma do Ocidente

O poder do Papa medieval atinge níveis inimagináveis. Por volta de 1300, Bonifácio VIII simplesmente livra o clero de impostos. A falta de Cartas Magnas fez com que o código canônico fosse amplamente utilizado em toda a Europa como lei.
 Em 1309, o rei francês deteve o papa em Avignon, onde permaneceu a linha sucessória até 1378, quando Gregório XI voltou para Roma, já perto de falecer.
É nesse contexto que, no mesmo ano, o eleito para sucessão, Urbano VI, recusa voltar para Avignon. Muitos cardeais o veem como autoritário e, na cidade de Fonti, decidem fazer um novo conclave. É eleito Clemente VII, que ficaria na sede de Avignon, com o apoio de França, Escócia, Nápoles, Borgonha, Savóia, Chipre, Castela, Aragão e, no Início, de Portugal também. Urbano VI ainda tinha apoio da Inglaterra, Países Nórdicos, Polônia, do Sacro Império, Hungria, Norte da Itália, Hungria e de Portugal sob a dinastia de Ávis.

Vale lembrar o contexto da política européia da época. A guerra dos Cem Anos entre França e Inglaterra levou as duas alianças a se oporem na questão. Da mesma forma, Portugal, sob Fernando I, apoiou Avignon. Depois da crise sucessória e a Revolução de Ávis, quando houve confronto contra Castela, não é estranho que João I passasse a apoiar o Papa Romano, alinhado com sua aliada, Inglaterra.

Em 1409, no Concílio de Pisa, foi eleito Alexandre V, na tentativa de um acordo, mas o que aconteceu foi que passaram a existir nada menos que três papas, cada um excomungando os fiéis aos outros. Nunca a Igreja chegou tão próxima de um fim sórdido, imerso em ambição e corrupção. Foi só no Concílio de Constança que se depuseram os três papas e se elegeu, em 1417, Martinho V, Sumo Pontífice (a expressão Pontífice foi herdada do Imperador de Roma quando da queda do Império). E se você acha que finalmente a violência teve fim, pois saiba que o pior momento ainda estava por vir.


O Papa Bórgia

Rodrigo Bórgia, o papa Alexandre VI
Com a morte de Inocêncio VIII, reuniu-se Conclave em 1492. Rodrigo Bórgia havia sido cardeal havia mais de 30 anos, nomeado por seu tio Afonso Bórgia (Papa Calisto III) e não era surpresa que fosse um nome forte para concorrer ao Trono do Vaticano. É sabido que ele gastou sua fortuna para subornar e comprar votos do conclave, além de intimidar quem pôde. Conseguiu o que queria: assumiu o Papado com o nome de Alexandre VI.
Sem querer bancar o advogado do diabo, acredito que muitas das acusações a ele atribuídas podem ser consideradas falsas, porém, é fato que, assim como a grande maioria da nobreza e do clero da época, Alexandre VI era corrupto e imoral de acordo com nossos atuais valores. As intrigas vão desde assassinatos a incesto.

De origem Castelhana, que por si só poderia ser motivo para desagrado de muitos, teve quatro filhos com Vannozza dei Cattanei: Juan, Cesare, Lucrezia e Jofre. Além de outros filhos com demais amantes (o celibato já existia). Entre as outras amantes, Giulia Farnese, mulher de Orsino Orsini, que por razão óbcia tinha tudo para odiá-lo. Um de seus filhos, Cesare, em especial, foi acusado de matar o irmão para assumir o papel de chefe do exército papal, que lutava contra os Turco Otomanos e, quando podia, tomava terras em seu próprio nome.

Entre as acusações menos embasadas, a de que Alexandre VI teria um caso com a própria filha, Lucrezia, provavelmente foi lançada para tentar impedir o casamento dela com uma família importante. Além, disso, houve uma suposta dupla tentativa de envenenamento entre ele e seu filho Cesare, mas que os mais sérios acreditam ter sido apenas uma doença contraída pelos dois, numa época de surto. Cesare recuperou-se, seu pai não.

Para conseguir driblar a oposição da Cúria, nomeou inúmeros novos cardeais sob seu comando, muitos familiares e até seu filho de dezesseis anos (que não é o cardeal mais novo, pois Calisto III, seu tio, nomeou um de treze anos, antes mesmo de sua crisma). Através de seus métodos, assumiu poderes sem limites, culminando na Bula que dividia o Novo Mundo entre Portugal e Espanha, por exemplo.
Seus principais concorrentes durante o conclave, Sforza e Della Rovere, se tornaram grandes rivais, com quem Alexandre VI lidava, sempre com ajuda de seu filho Cesare, de maneira aplaudida por Maquiavel, que elegeria Cesare como modelo de Príncipe Moderno. Savanarola, do clero de Florença, um grande opositor, foi humilhado publicamente, estrangulado e queimado; muitos outros de menor expressão seriam mortos, supostamente pelos Bórgias. A morte de Savanarola poderia fazer parecer que o Papa Bórgia era imbatível, mas foi uma semente da Reforma, que sucederia anos depois.


A Reforma

Martinho Lutero
Não só os cargos clericais estavam em constante disputa de interesses, mas também a posse de bens. A Santa Igreja era a Instituição mais rica do Ocidente, detentora de terras invejáveis a qualquer grande imperador. Além disso, os reis que buscavam centralização do poder precisavam de poder sobre a religião. Não obstante, o crescimento da burguesia era barrado pela imoralização da usura (juro), o mesmo tabu que causaria o rompimento das Ordens Cavaleirescas (criadoras dos bancos) com a Igreja. Foi graças ao apoio de nobres e burgueses ambiciosos que Martinho Lutero conseguiu sucesso na sua empreitada humanística da Reforma.
Como dito anteriormente, o movimento reformista já ganhava corpo, ao exemplo da atitude de Savanarola, ou dos Hussitas, liderados por Huss, que foi queimado na fogueira. As iniciativas eram graças ao movimento Humanista que se espalhava pelos quatro cantos da Europa, com base em diversas Universidades. Diria mesmo que, não fosse a ruptura com os humanistas em Castela, por parte dos Reis Católicos, a Reforma teria sangue latino, tamanha era a concentração desses pensadores em Universidades como a de Salamanca. Foi, porém, no coração do Sacro Império Romano Germânico que ela aconteceu, graças a atitude de Martinho Lutero que criou suas famosas 95 teses, nas quais contestava muitos dogmas da Igreja que considerava corrompidos. Não entrarei em detalhes sobre as teses, porque isso pode ser assunto para uma postagem própria, mas acredito que o principal seja repúdio a Compra de Indulgência (perdão de pecados mediante a pagamento) e a tradução da Bíblia (que faria da palavra das escrituras a lei, em detrimento da palavra dos Padres), além do fim do celibato, enfim, o suficiente para a ira do Papa.

A reforma Luterana foi o estopim para o surgimento de outras facções cristãs, como Calvinistas e Anglicanos, umas mais Burguesas, outras mais Monarquistas. Na tentativa de encontrar um solução, foi convocado o Concílio de Trento, onde foram elaboradas medidas de caráter reformista na Igreja: A volta do Tribunal do Santo Ofício (inquisição), proibição de livros, criação da Companhia de Jesus (catequistas para o Novo Mundo), adoção da Vulgata como a Bíblia Oficial e supressão aos abusos da indulgência. Para essas decisões se deu o nome, posteriormente, de Contra-Reforma.
As consequências da volta com força total do Tribunal do Santo Ofício causou o período conhecido como o mais negro da história da Igreja. Não que protestantes não cometessem atos tenebrosos, mas como foram eles que escreveram a história, no final das contas, foram os católicos que pagaram de Vilões. Na minha visão, o que se passou foi um estado de Guerra Civil Primitiva. Nessas questões, nunca há lado certo e errado. Por exemplo, em contra ponto à inquisição, pelo menos três Papas manifestaram repúdio à escravidão nas colônias americanas, fato pouco exposto.

O Papa viu, no contexto do surgimento do protestantismo, Roma ser saqueada; Nações Católicas como Espanha e Portugal, perderem suas posses coloniais para Inglaterra e Holanda; além da perda de muitos súditos na fé. Era o fim do auge do poder do Papa.


Napoleão, a Itália e a Questão Romana

Por duas vezes, o vaticano se viu simplesmente extinto. A primeira com a invasão francesa liderada por Napoleão Bonaparte e o início da idéia de Estado Laico. Qualquer revolta era severamente punida. Os Estados Pontifícios só foram restituídos pelo Tratado de Versalhes. Na segunda vez, porém, havia um ideal maior: a Unificação da Itália. Victor Emmanuel II nunca cederia territórios dentro da área de soberania italiana. Só em 1929, com o Tratado de Latrão é que se reestabeleceria o Vaticano, em proporções que nada lembram às da Idade Moderna.

O poder de influência política havia diminuído, mas continuava vultoso. A Doutrina Social da Igreja, que dava preferência ao Capitalismo, mas com interferências de cunho social do Estado e a formação de sindicatos era, num tempo de mudanças, uma idéia já com muita cara da Igreja Moderna. Ainda vale lembrar que, mesmo hoje, a Igreja Católica possui terras que, se somadas, formariam uma nação maior que muitas que por aí se encontram e que, mesmo não comparáveis ao luxo do passado, ainda há muitas riquezas sob domínio da Santa Sé.

Atualmente, o Vaticano possui menos de meio quilômetro quadrado e cerca de 800 habitantes.

Após o Concílio do Vaticano II, o papel do Papa moderno foi estabelecido, com sua vida de peregrinações em diversos países, como pudemos ver em João Paulo II, sempre em defesa da paz, caridade, ecumenismo e direitos humanos. Uma igreja mais humanizada, finalmente, que se arrependeu oficialmente de seus grandes pecados, mas que, aos olhos de muitos, ainda parece atrasada em suas ideias.

Atenciosamente.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Breve História do Papado - I

No dia 11 de fevereiro, o Papa Bento XVI anunciou sua abdicação ao papado. Tendo em vista todos os comentários que esse evento gerou em redes sociais e na mídia eletrônica, logo pela manhã, iniciei uma breve pesquisa para me embasar em meus comentários a respeito do papado. Por isso, trago agora uma breve história e uma discussão tão profunda quanto meus parcos conhecimentos podem gerar.


Pedro, representado com vestes papais
O Começo

Já de início, temos que discutir o surgimento da figura do Papa. São Pedro é visto por muitos fiéis como o primeiro Papa, mas o problema é que não havia esse posto na época. Não há consenso acerca da hierarquia da Igreja Católica primitiva entre os historiadores. Há os que defendam que os líderes locais (apóstolos) não eram submetidos ao comando de um líder central, muito menos que ele estivesse situado em Roma. Existem mesmo defensores de que São Pedro nunca foi Bispo de Roma, nem mesmo esteve lá. A problemática surge porque os testemunhos da sua presença na cidade seriam todos de pessoas nascidas muito depois da sua morte. De qualquer forma, a tradição dessa história beneficiou em muito a legitimidade do poder eclesiástico durante o passar de Séculos.

Eu repudio o anacronismo. Refiro-me, aqui, a levar ao pé da letra o título de Papa. É óbvio que nada surge pronto, na sua forma final. O papa que conhecemos hoje é o resultado de mais de dois milênios de evolução do direito canônico. A igreja Católica de hoje não se assemelha em quase nada à igreja primitiva ou a poderosa igreja medieval, que constituiu exércitos numerosos e tinha grande poder político. Pedro foi um nome importante da Igreja Primitiva, senão o principal. Isso está nas escrituras. Se realmente ele foi sacerdote em Roma e foi essa "linhagem" que depois se tornou a principal entre todas, é possível dizer que ele foi um Papa primitivo, ainda sem poder absoluto. Assim como os reis da França feudal não detinham o poder dos reis absolutistas, mas são considerados reis da mesma forma.

O fato é que, naquele tempo, o Bispo não exercia uma autoridade sobre os demais fiéis. Os privilégios do Clero foram conquistados com o passar do tempo. Os primeiros cultos eram pequenos e familiares e o Apóstolo tinha papel de ancião, respeitável pela sabedoria, casado e com filhos. O patriarca de Roma, em especial, não possuía vantagem alguma sobre os demais, nem mesmo participou dos nove primeiros Concílios, a despeito do que retrataram muitos artistas, pagos pelos Papas na Idade Média para distorcer a história, assim como sustentaram a legitimação da sua linhagem no fato de Pedro ser o fundador da Igreja Católica. Esquecem eles que a Igreja era de Deus, não de Pedro: "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha igreja". Não importa se você acredita ou não, a frase é de fácil interpretação e, em nenhum momento, dá a posse da igreja a Pedro, que é apenas instrumento, não edificador.


O Poder Eclesiástico

Imaginem um dúzia de pessoas reunidas para um culto. Essa era a cara das primeiras "missas". Foi quando o cristianismo ganhou proporções imperiais e o número de adeptos cresceu vertiginosamente que o desejo pelo controle do culto passou a gerar interesse. Os bispos passaram a delegar funções aos padres, primeiro sinal claro de hierarquia. No local do culto, a cadeira do Clérigo era mais elevada, para que ele observasse a todos. Depois a cadeira elevada foi substituída pelo trono.
Os direitos dos Bispos se reforçaram após o Concílio de Nicéia. Essa reunião era uma tentativa de Constantino em apaziguar as diferenças entre tradições de diferentes bispados. Nele foi decidido que Jesus era também Deus, estabelecendo a Trindade e o Credo e quem não concordou foi excomungado e condenado pela lei, pois os dogmas ali decididos passaram a ter respaldo legal do Império. A heresia era crime, punível pelo Poder Secular. Os discípulos de Arios tiveram de se refugiar fora dos domínios romanos e suas posses passaram para o clero.
Com o início da pressão bárbara, a capital se transfere para Constantinopla. É nesse ponto que se abre a brecha para a subida ao poder em Roma. A falta do imperador torna o Bispo a figura mais importante, inclusive em questões de jurisdição e na política. Teodósio, então, tornou o catolicismo religião oficial no Império, o clero passa a ser constituído por Oficiais do Império, com remuneração. Cresce o poder clerical. No princípio parecia ser um poder espiritual, mas o tempo viria a torná-lo um domínio sobre o corpo, as terras, a política e o mundo (inquisição, Estados Pontifícios, benção de reis e guerras, Tratado de Tordesilhas, respectivamente).

Constantino oferece coroa a Silvestre I, Bispo de Roma, que aqui preside o Concílio de Nicéia.
 Na verdade, São Silvestre nem esteve presente à reunião.

A decadência do império e de seus governantes é o portal maior para os sacerdotes assumirem controle na sociedade, sustentados na filosofia de Santo Agostinho, que dizia que o poder Secular não poderia governar. Apenas a Igreja pode criar a "Cidade de Deus". Obviamente, Agostinho não disse que deveria ser o Bispo de Roma que deveria governar, mas os Papas acrescentaram a ideia. É nesse ponto, sobre as cinzas da Roma pagã, que Carlos Magno é coroado com a benção do Papa, dando a inspiração para a posterior criação do Sacro Império Romano Germânico. Não só ele recebeu terras de um império, com o seu auxílio, o Papa se tornou uma espécie de Rei, com a aquisição os Estados Pontifícios. Interessante dizer que o título papal se popularizou e oficializou graças a uma inscrição no trono do Bispo de Roma. O "papa" da inscrição indicava, desde o Século IV, a ambição dos romanos em se tornar "pai dos pais", ou "padre dos padres".

Vale lembrar que, já nessa altura, os abusos de poder eram muitos. Muitos fieis descontentes migraram para monastérios. Mais uma vez, Agostinho favoreceu os clérigos. Dizia que não importava se o padre que lhe oferecia os sacramentos era pecador, ele era apenas um distribuidor e o sacramento agia por conta própria.

Carlos Magno é Coroado pelo Papa Leão III
Cisma do Oriente

Em 882, morre o primeiro Papa por envenenamento: João VIII. Pouco depois foi Formoso I, que teve o corpo excomungado, mesmo após a morte, arrastado pelas ruas de Roma e lançado às águas do Tibre pelo seu sucessor, Estevão VII. O furor do povo veio a trazer a morte deste também, durante uma revolta, pouco depois.
No Século seguinte, João X foi morto pela filha de uma amante, que conseguiu pôr seu filho no Trono de São Pedro, mas esse também foi assassinado anos mais tarde.
Só Bento IX assumiu três vezes o posto: eleito em 1032, deposto em 1044, restitui o poder em 1045 e abdica no mesmo ano. Reassume em 1047 para ser definitivamente retirado do poder um ano depois.

Durante esse período conturbado, a sede de Roma e de Constantinopla romperam e voltaram a se entender algumas vezes até que, em meados do Século XI, não foi mais possível o acordo e Constantinopla, com o apoio de todos os patriarcados do Oriente, rompe de vez com o Ocidente. Surge a ortodoxia. é o Cisma do Oriente. Pode parecer uma grande derrota para o papa, pois nesse período, muitos papas foram destituídos mas, na verdade, a ruptura ajudou a trazer sentimento de bipolaridade sobre o poder do Papa ou do Patriarca de Constantinopla. Foi mais um fator de centralização do Poder Eclesiástico.

Mesmo após o rompimento, em 1095, é declarada a primeira Cruzada, em auxílio aos Bizantinos e para a conquista da Terra Santa. Surgem, então, as ordens de cavaleiros e a inquisição. Muistas cruzadas se sucederam no passar de Séculos, mas nenhuma como a primeira.

CONTINUA...

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

A Posse do Cargo Público

Seria difícil imaginar, hoje, um Estado que funcionasse sem servidores públicos nos moldes que conhecemos. No entanto, podemos olhar para o passado e ver que muitas formas de organização do trabalho para o Estado, da burocracia e dos exércitos foram tentadas até chegarmos à concepção moderna de Funcionário Público. A posse de um desses cargos, da mesma forma, foi obtida de diversas maneiras.

Enquanto Chineses, já no século VII, realizavam exames literários para altos cargos, somente no século XX é que Max Weber veio discutir essa metodologia no Ocidente.

Já de início, é necessário dizer que o "País" que conhecemos só surgiu a partir do Século XII. Portugal, em 1140, reuniu pela primeira vez os ítens necessários para formação de um Estado Moderno, ainda que monárquico. Antes disso, somente no Oriente poderíamos encontrar algo que se assemelhasse. Portanto, o cargo público, antes disso, tinha uma conotação um tanto diferente.

Já no Egito, papeis hoje representados por funcionários concursados ou selecionados eram desempenhados por sacerdotes ou funcionários do Faraó. Mas é necessário verificar que esses homens eram fiéis à figura do Faraó, o governante. É como se o funcionário público fosse defensor do governo, não do Estado.
Parece que, ainda nos dias de hoje, alguns servidores acreditam estar a serviço de prefeitos ou governadores, principalmente nos municípios pequenos desse Brasil a fora, mas esse não é o assunto da postagem. O importante é notar, também, que a escolha de cargos era Despótica, ao bel prazer do Faraó, que não pensava duas vezes antes de escolher seus familiares para funções importantes ou vantajosas, já que, por possuirem parte do seu sangue, poderiam suportar melhor a aura mágica que ele emanava e que poderia ser mortal a um simples camponês. Da mesma forma, não era impossível que ele escolhesse um homem distinto por sua qualidade em determinada função. Muitos engenheiros e artistas eram selecionados pelo mérito, mas muitas vezes seus cargos passavam para seus filhos menos prestigiados de talento.

Na Grécia Clássica, mais precisamente em Atenas, já que não havia um Estado Grego e sim diversas cidades com governo próprio, ocorreu algo interessante. Tudo era decidido por eleição ou sorteio e todo homem acima de 20 anos poderia assumir um cargo público, sendo agraciado com mandato de um ano sem reeleição. Os cargos mais importantes eram decididos via eleição direta da assembléia e os menores eram sorteados. Fácil para uma Cidade-Estado, difícil para uma nação de dimensões continentais, como o Brasil. Tomemos por exemplo o referendo sobre o desarmamento feito no nosso país, em que o gasto foi de 25 milhões para a realização, isso porque se aproveitou o momento das eleições.

Na Roma Antiga, foi adicionada a figura dos Cônsules, magistrados com poder deliberativo sobre diversas áreas, inclusive na escolha da posse de cargos importantes, como o do Tribuno (defensor dos plebeus). Mais tarde, tornaram-se figuras decorativas do império e os tribunos passaram a ser eleitos diretamente pelo povo.
Aos moldes dos conselhos de anciãos da antiguidade oriental, surgiu também o Senado Romano, cujos membros eram homens notáveis entre os Patrícios, isso é, a nobreza. Seu auge veio durante a República (nobreza republicana? pois é, continua a mesma coisa). A decadência veio com o período do império, quando se tornaram uma espécie de oposição, muitas vezes perseguidos pelo imperador.

Veio então, no Ocidente, um longo período de diluição de Roma. Diversos povos com organização pouco centralizada emergiram. Teve início o Feudalismo.

Na Europa Medieval, grande parte das funções se tornaram hereditárias. Graças ao rigoroso sistema de castas que separava nobres e plebeus, o mérito deixou de ser critério para a seleção de pessoas que realizariam um determinado serviço. Isso contribuia em muito para a baixa eficiência dos governos e para altos índices de corrupção. O rei não reinava um país, e sim um aglomerado de outros proprietários de terras menores, que por sua vez mandavam em outros menores ainda. Não é a toa que só após a centralização do poder nas mãos do rei é que passaram a existir nações coesas, na forma de Estados Nacionais, como vemos hoje.

Com a obtenção do poder centralizado, era possível escolher a dedo os melhores homens para cada função. Mesmo assim, seriam necessários séculos para o mundo ocidental chegar ao conceito de servidor público que se insere em nossa atual constituição. Enquanto isso, nessa mesma época, nas vizinhanças da Europa, os otomanos criaram um sistema que viria a impressionar o mundo ocidental, muito mais avançado e baseado puramente no Mérito. Maquiavel, um dos pais da política moderna, viria a elogiar o emprego dos funcionários públicos pelo sultão otomano. Um filho de um carpinteiro poderia se tornar, caso tivesse talento, um grão-vizir. Até cristãos e judeus possuíam alguma chance nessa nação islâmica. Como nada é perfeito, porém, é preciso criticar o fato de crianças serem tiradas de sua família desde muito cedo para a formação de funcionários totalmente fiéis única e exclusivamente ao Sultão.

O acesso restrito ao estudo também era fator de detenção dos melhores cargos pela nobreza e, depois das revoluções burguesas no início da Idade Contemporânea, pelas classes dominantes da economia. Mesmo que o Déspota quisesse dar um cargo a alguém competente, ele ficaria limitado a um rol de nobres e burgueses capacitados para a função.

Essa realidade fazia parte do Brasil Império e se extendeu à primeira fase da República. Somente em 1934, já na era Vargas, surgiu o Concurso Público, processo imparcial e meritocrata para a escolha de funcionários do Estado. Ainda assim, a perseguição política foi grosseiramente utilizada para destituir os cidadãos de sua conquista. Em 1988, com a atual constituição (feita por "perseguidos" políticos), surgiu a idéia da estabilidade, que diferencia o servidor público do funcionário de empresas privadas. Os pontos positivos e negativos da estabilidade dos funcionários concursados não cabe a essa postagem discutir.

Hoje, temos, no âmbito público, os cargos selecionados por avaliação (concursos e seletivos), os cargos eletivos (com mandatos temporários) e os indicados por confiança (processo semelhante ao Nepotismo Faraônico). Mesmo com toda a evolução do processo de obtenção do cargo público, vemos manobras para burlar as regras e toda sorte de corrupção, desde os menores cargos de prefeituras até as mais altas esferas do poder. Esse é o Brasil, que não conhece sua história, menos ainda a história da civilização como um todo, em que indivíduos ignorantes a tudo isso, eleitos pelo povo igualmente alheio, se acham no direito de jogar toda a evolução histórica da política no lixo para benefício próprio.

Agora um pouco de opinião pessoal. Aqui fala alguém que foi terrivelmente prejudicado por corrupção e irregularidades dos bem afamados concursos. Lembro de ter lido num calendário de parede da CUT que dizia: Sem concurso não há democracia. Nomeação é corrupção.. ou algo assim. De que adianta o gasto no concurso, no entanto, se há milhares de formas de burlar a prova e pouquíssima fiscalização. Um concurso em que passei foi suspenso por indícios de irregularidades (tem criminoso que não vai preso por não haver provas suficientes, mas meros indícios de irregularidades foram o bastante para que eu perdesse o cargo por causa de um crime alheio, e já estou sem esperanças de indenização). Em outro, passei e esperei sentado para ser chamado (informações dizem que não há interesse em me chamar, pois o cargo é muito oneroso para a folha de pagamento). Soube que eu poderia entrar na justiça para haver o cargo, mas como entrar dessa forma numa cidade pequena? Que tipo de perseguições eu sofreria por 4 anos? É evidente que só entra quem convém politicamente. Postei a respeito porque pode interessar a alguém, mas a mim não interessa mais cargo público nenhum. Estabilidade tem quem é capaz de lidar com os vaivéns do mercado. O governo é instável e repugnante.

Atenciosamente.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

A República de Estudantes de Esquerda

Durante meu curso na Universidade, pude contemplar a presença de inúmeros colegas universitários da esquerda política, a maioria partidários do Socialismo, muitos ainda que vinham às aulas com camisas vermelhas, como se fossem uniformizados. Fiquei sabendo posteriormente que a universidade em que estive é grande centro brasileiro de estudos marxistas. Aff...
Lido, havia pouco, Charles Fourier e seus Falanstérios, estava com a mente voltada a aceitar toda aquela movimentação como algo bom, o futuro da sociedade, o intelectualismo na Universidade, como nas décadas da ditadura, seria a salvação do país. Admirava os estudantes engajados, muitos com o talento de promover discursos em palanques e campanhas eleitorais invejáveis para o Diretório Central Estudantil.

Certo dia tive oportunidade de visitar o apartamento de um camarada, recentemente conhecido. Morava numa república onde todos se encaixavam nas características citadas anteriormente. Eram muitos livros, muita discussão sobre um assunto vigente da época, a privatização do Hospital Universitário, uma marofa daquelas e muitas latas de cerveja vazias espalhadas.
Naquele local, senti como se estivesse numa vanguarda do intelecto, pois era aquilo que minha vulgar inteligência idealizava como sendo o suprassumo da vida acadêmica.

Foi quando abri a geladeira que minha visão crítica começou a trabalhar. Não pela imundice, pois devo confessar que meu apartamento nunca foi do maior capricho nesse quesito, mas pela organização espacial. Cada membro da República (que não lembro o nome) possuía um lado de uma prateleira para guardar suas coisas. Presenciei, inclusive uma ligeira discussão acerca de um molho desses de pôr no cachorro quente, não me lembro se era mostarda ou maionese, mas que estava invadindo o território alheio. O fato caiu sobre meus pensamentos como pedra. Desde então, passei a observar melhor a residência daqueles comunistas e vi muitas coisas que não pareciam nada com o que havia lido tempos antes.

Fourier defendia que todos trabalhassem e que o resultado desse trabalho fosse colocado num só bolo, de que todos poderiam utilizar, conforme sua necessidade. O que vi ali eram divisões sistemáticas de posses e atitudes que nunca levariam a um socialismo saudável. Os quartos, por exemplo, uns limpos outros um tanto sujos, mas organizados, por que cada um tomava conta da limpeza de seu dormitório. Os que eram divididos entre mais de um estudante estavam mais sujos porque havia dificuldade em dividir as tarefas de limpeza. Os cômodos comuns, por outro lado, eram odiosamente impregnados de uma camada de poeira, pois ninguém queria trabalhar, mesmo que obrigados pelas regras da República, no lugar comum. Faziam então um serviço "relaxado", até que não houvesse mais condições, daí chamavam uma diarista. Resolvido. O assunto, que eu trouxe à tona, foi motivo de risos, a final de contas, pois tudo era passível de virar piada naquela roda de jovens sábios. Na minha cabeça, porém, martelava (ou foiçava, não sei bem) que aquilo não era o que imaginava.

Aquele que pagava uma percentagem relativamente maior do aluguel tinha um quarto só para ele e um espaço maior na geladeira que, por mais que se encontrasse vazio, não poderia ser utilizado pelos outros.
O video game estava ali, em frente ao televisor, mas não podiam ligar, pois o dono não se encontrava em casa.

Passavam horas a discutir assuntos de Estado e a economia nacional, sem perder um minuto para reorganizar a bodega onde moravam. Era o famoso "discutir o sexo dos anjos". O momento que mais me impressionou negativamente, porém, foi quando entrou em pauta a eleição do DCE que aconteceria em breve (motivo da minha visita). Cursos se tornavam simples números na contagem de votos, adversários eram chacoteados, os aliados, pouco se comentava. Para os indecisos, decidiam a melhor forma de manipular seus votos com o único intuito de ganhar o pleito. O que seria feito depois da vitória, talvez discutíssemos outra hora.

Perdemos a eleição, mas estive na sede do Diretório tempos depois onde vim a ter com um antigo conhecido, membro da chapa contrária, e tive certeza de que, pelas atitudes desse rapaz, a nossa derrota naquele momento foi uma vitória para todos.

A capacidade de abstração do ser humano, por vezes, é excessiva. Pode imaginar uma sociedade perfeita de camaradas altruístas sem nem mesmo sê-lo em sua própria casa. Mesmo os cientificistas do socialismo não conseguem fazer seu trabalho da mesma forma que o fazem para si mesmos, quando têm de realizá-lo na terra comum. E quando isso se torna óbvio, basta pagar para alguém fazer o que ele não teve vontade.
Atenciosamente.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Brasil e a Crise dos Mísseis de Cuba

Tema de um filme que figura entre meus favoritos: Os treze dias que abalaram o mundo, esse momento é daqueles que mudam a história do mundo de forma irremediável. Vejamos embricamentos do que levou a Guerra Fria a ser fria e não quente como uma explosão nuclear.
Era o governo de João Goulart, após a renúncia de Jânio Quadros. Não só o Brasil vivia uma situação crítica de pressão dos militares sobre o governo. Na União Soviética e nos Estados Unidos, uma escalada de manobras intimidadoras levavam à beira de um colapso no delicado equilíbrio que permitia a paz durante a Guerra Fria.

No ano de 1961, a tentativa de derrubada do regime de Fidel Castro na invasão na Baia dos Porcos foi uma humilhante derrota americana. Serviu apenas para enfurecer os Soviéticos e para ferir o orgulho dos generais americanos, loucos para uma nova tentativa. A instalação de mísseis, por parte dos Estados Unidos, no mesmo ano, em base militar turca, serviu de estopim para os comunistas. No ano seguinte, a resposta viria com o que ficou conhecido como o momento mais perigoso da história da humanidade.



A retaliação pela atitude ofensiva americana veio com a instalação de mísseis em Cuba, o único aliado declarado no Novo Mundo. Obviamente, as forças armadas dos Estados Unidos mantinham vigilância constante da ilha caribenha através de aviões espiões, que logo descobriram o procedimento.
Iniciou-se, então, um período de 13 dias nos quais, ora se aproximava do início de uma guerra nuclear, ora parecia haver possibilidades de acordo. Militares de ambos os lados pressionavam para ação ofensiva, mas pessoas iluminadas persistiam em esvaziar até a última gota da diplomacia.


Robert Kennedy entra como personagem importantíssimo na história, tendo atirado para todos os lados (a expressão não fica muito bem aqui), na tentativa de encontrar solução pacífica.
Nos últimos dias, enviou carta ao governo brasileiro, onde solicitava o envio de diplomata para Cuba, na tentativa de uma aproximação e um acordo, no qual prometeriam não destituir o governo castrista, em detrimento da manutenção dos mísseis balísticos.
Foi enviado, no lugar de um diplomata, um militar com simpatia pelo partido, mas as negociações andavam devagar, pois Castro queria que Guantánamo (onde havia base militar americana) entrasse nos termos. Foi então que, a despeito das negociações mediadas pelo Brasil, americanos e soviéticos chegaram a um denominador comum que envolvia a retirada das armas em Cuba e a promessa de não invasão (oficialmente) e a retirada das armas americanas da Turquia e Sul da Itália (extra-oficialmente).

Assim, podemos perceber a importância política do Brasil nas questões do continente americano. Não devemos nos negar esse papel e, para isso, é necessário que o povo brasileiro conheça sua história e as minúncias da política. Só assim assumiremos a responsabilidade devida de uma potência continental e, quem sabe um dia, mundial. "Um povo que não conhece sua história está condenado a repetí-la."
Atenciosamente.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Romances sobre História do Mundo

Essa Lista é um tato complexa, por isso, curta. Não valem aqui livros que contam a história, simplesmente. São romances, com um enredo ficcional e que acabam, em meio à história, tecendo um "documentário". Sendo assim, Uma Breve História do Mundo, ou Pequena História do Mundo Para Crianças não valem, porque não possuem trama, apenas a descrição histórica. Outros como Código Da Vinci, apesar de se encaixarem no gênero, abrangem parte limitada da linha do tempo.


 História do Mundo para as Crianças
Monteiro Lobato

O enredo é só uma desculpa para contar a história, mas já vale. Dona Benta, em meio a uma roda com toda a turminha, conta histórias do mundo, desde a pré-história até o século XX.
Como a obra já pode começar a ser considerada "antiga" ou um clássico, como preferirem, porque muitos fatos já foram cientificamente descartados, como o homem da pedra que puxava a mulher pelos cabelos. Mesmo as imprecisões são divertidas para a compreensão de uma época diferente, há tão pouco tempo e já tão distante.








O Mundo de Sofia - Romance da História da Filosofia
Jostein Gaaster

Não é bem uma história universal do mundo, mas as misteriosas cartas que chegam à menina Sofia são um relato histórico MUITO agradável de ler da história do pensamento humano.
Muitos falam em como é difícil encontrar um livro desse tipo que seja imparcial. Eu, do meu lado, prefiro aquele que ressalta todos os momentos, que faz com que fiquemos mais entusiasmados com a leitura.







Ok, preciso de ajuda para achar mais livros desse tipo, são alguns dos que mais marcaram minha formação como leitor. Qualquer dica é bem vinda.

Atenciosamente.

A Maldição de Paulo Camargo - Edifício Joelma

Poucos dias depois da tragédia em Santa Maria, chega o dia 1 de fevereiro, 39 anos exatos do episódio do incêndio no Edifício Joelma, o segundo mais trágico da história nacional, só superado em perdas humanas no recente acidente no Rio Grande do Sul.
O incêndio do Joelma ocorreu por um curto circuito num aparelho de ar-condicionado, em 1974, três anos após a inauguração da construção.

Uma história por anterior a esse momento infeliz é que causa arrepios, por ter acontecido no mesmo lote, perto da esquina da Santo Antônio com a 9 de julho em São Paulo, onde, antes da construção do Joelma, morava uma família da qual não restaria nenhum membro.

No ano de 1948, acima de qualquer suspeita, o professor de Química da USP, Paulo Ferreira Camargo, chamaria a atenção da imprensa para um crime bárbaro, que hoje seria mais um entre tantos da TV, mas naquele tempo, quando a mídia ainda não descobrira o nicho do "Sangue no Jornal" e assassinos não costumavam ser transformados em celebridades, causou choque na população.

O jovem professor de 26 anos construiria, no terreno de sua casa, um poço porque, segundo ele ao ser investigado, abriria uma fábrica de adubo e não poderia usar do sistema convencional de esgoto. Dias depois, espalhou a notícia de que iria viajar para o Paraná com a família. No dia 5 de novembro enviou a nota de falecimento de sua mãe e das duas irmãs com quem dividia residência, num acidente de carro nas proximidades de Curitiba.

Vizinhos começaram a achar estranho o fato de não haver funeral. Pessoas próximas aos outros integrantes da família, Benedita (mãe), Maria Antonieta e Cordélia (irmãs), que não foram avisados da viagem, também passaram a suspeitar. Denunciado, passou a ser investigado pela polícia que, ao interrogar o Dr. Hoffmann, colega de trabalho no laboratório de Química da Universidade, foi ralatada uma pergunta feita pelo suspeito à testemunha que intrigou a polícia: Qual o melhor agente químico para corroer um cadáver?

A investigação na residência de Paulo trouxe a luz o poço que construíra. Não contentes com as explicações  e a aparente regularidade da obra, pediram aos bombeiros que escavassem a área. Imagine a surpresa daqueles que viram os três corpos, parcialmente enrolados em panos, de cabeça para baixo, imersos no poço.

Com policiais cercando a casa, o professor pediu licença para ir ao banheiro durante a escavação. Foi nesse momento que usou sua arma para o suicídio, levando consigo as explicações para o bizarro crime e a chance de ser julgado e punido pela lei dos homens.


A vinda a tona do fato, após o incêndio, obviamente abriria oportunidade para o mito da maldição que estaria contida no lote. A fama de mal-assombrado só ganhou força com o fato de 13 pessoas que ficaram presas num elevador, vítimas do incêndio, não terem sido identificadas.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Batalha dos Atoleiros - Tática do Quadrado

Durante grande parte da Idade Média, a cavalaria pesada foi a força motriz dos exércitos em batalha. Poucas vezes se viu uma grande cavalaria ser ineficaz diante de uma infantaria ou de uma cavalaria mais leve e menor. Muito da força política da nobreza vinha da necessidade de seus recursos para montar uma cavalaria numerosa e bem equipada.


Essa realidade começou a se reverter no século XIV e muitos historiadores colocam, em sua análise, seu foco na Guerra dos Cem Anos, entre França e Inglaterra.
É possível, no entanto, exemplificar essa mudança de paradigma com uma história muito mais "caseira", durante a invasão castelhana a Portugal, no período do Interregno de 1383 a 1385.
O rei de Castela, casado com a filha do rei de Portugal, D. Fernando, que morrera sem deixar herdeiro varão, queria para si a posse do trono português. A burguesia lusitana, no entanto, decidiu apoiar um conterrâneo, mestre da Ordem de Ávis, D. João, tendo início a escaramuça.

Apesar da burguesia portuguesa estar enriquecida, o exército consistia primariamente em infantes a pé. Já as forças castelhanas, além de muito superiores numericamente, possuíam muitos cavaleiros. É nessa necessidade de superar tamanha provação que Nuno Álvares Pereira idealiza a Tática do Quadrado, semelhante, em partes, a uma falange grega, onde lanças longas e em grande densidade e organização neutralizam totalmente a investida dos cavalos. A diferença para os exércitos helênicoss é que a formação contava com apoio de bestas e era quase impossível de ser flanqueada, ao contrário da falange, que tinha em suas laterais o seu ponto fraco, que trouxe o seu desuso e o início da era de ouro das legiões romanas, mais versáteis.
A cavalaria investia contra a linha de frente e sofria muitas baixas nas lanças longas, depois eram alvejadas pelas bestas até que o ataque era repelido. Numa segunda investida, os corpos de homens e animais caídos já consistiam em obstáculo e o ataque, já de um número menor de homens, tornava-se cada vez menos eficiente.
Outra característica eram os flancos móveis e o avanço da retaguarda, que podiam ampliar o comprimento da fileira, cercando o oponente de surpresa, ao invés de ser flanqueado.

Virtualmente impenetrável, essa formação extremamente defensiva e passiva (há que se dizer que só houve sucesso porque a guerra foi de defesa, nunca de avanço) foi responsável por vitórias históricas contra os castelhanos, o que assegurou a independência portuguesa nesse período conturbado:

Os três combates que fizeram do Quadrado a figura geométrica favorita dos portugueses:
Atoleiros  - A primeira em que a tática é usada. Vitória mais perfeita do exército português na história.
Trancoso - Pela ausência de Nuno A. Pereira, a tática é diferenciada e menos eficaz, mas surte efeito.
Aljubarrota - A derrota final dos castelhanos.






Por que Atoleiros?
Obviamente merecedora de destaque, a batalha de Aljubarrota foi muito maior, mas Atoleiros foi a Primeira em que se pode notar o uso da inovadora tática e, um fato dos mais intrigantes, não houve NENHUMA baixa nas forças portuguesas. Foram 1200 homens a pé contra 5000, muitos a cavalo, e nenhum homem sequer foi morto no lado em inferioridade numérica. O fato, tido como obra de Deus, permitiu a reunião de mais homens para o momento decisivo que viria no ano seguinte, em Aljubarrota.

Quando da investida inicial da cavalaria, os castelhanos pensaram que seria um vitória fácil, fazendo do ataque um pouco "afrouxado". Quando se encontraram com as lanças da linha de frente da infantaria lusitana, que estavam cravadas no chão para dar firmeza, os cavalos se feriram gravemente ou morreram, ou refugaram. Já desorganizada, a cavalaria preferia voltar e tentar outra investida ao invés de tornar o combate um corpo a corpo contra uma força mais concisa. A essa altura, a chuva de projéteis das bestas enfraquecia mais ainda as "superiores" forças de Castela.
Devemos saber, para visualizar uma cena interessante, que um ataque de cavalaria, por usar de animais, não pode ser tão facilmente abortado, especialmente se os cavalos estiverem a toda velocidade. Imagine, então, a surpresa dos castelhanos após a investida contra uma força pequena (a vanguarda portuguesa) que, de repente, se abre para os lados e deixa avançar pelo centro a retaguarda, esticando a fileira o suficiente para possibilitar o cercamento da cavalaria.
É fato que a moral de uma tropa é de importância equiparável a outros atributos de qualidade e só podemos tentar nos colocar na posição dos nobres cavaleiros de Castela, paramentados de armas, armaduras e animais caríssimos, vendo suas tentativas fracassarem e seus irmãos em armas caírem. Não é a toa que os combates terminavam sempre em fuga total desorganizada e perseguição da cavalaria portuguesa por quilômetros a fio, que matava muitos mais.


Para se ter idéia da importância do evento no nosso país colonizador, uma iniciativa muito interessante tem recriado, atualmente, em sua data comemorativa, a batalha dos atoleiros, com atores paramentados de armaduras e armas medievais. Não pude participar desse evento mas, se um dia visitar Portugal, pretendo fazê-lo!!!!

Atenciosamente.

Batalha de Aljubarrota

Inserida no contexto da Guerra dos Cem Anos, da Peste Negra e da Reconquista na Península Ibérica e com consequências históricas de importância imensurável, a batalha que determinou o início da Dinastia de Ávis em Portugal se deu entre duas ribeiras, no sopé de umas colinas, numa região até então pouco notória: Aljubarrota.

A Crise

Regressemos ao conturbado último reino da dinastia de Borgonha, o de D. Fernando.
Após se aproximar de obter chances de assumir o trono de Castela - pois quando da morte de Pedro I de Castela, travou disputa com Henrique de Trastâmara, a quem o papa favoreceu quando lhe foi pedida intervenção - foi cedida a ele a mão de D. Leonor de Castela, filha de seu adversário. Assim sendo, ainda restaria esperança, caso não houvessem filhos homens de D. Henrique, de se alcançar uma dos reinos em seu matrimônio.
Não resistiu D. Fernando, porém, aos encantos da mulher de um cortesão, D. Leonor Teles de Menezes, com quem veio a casar, anular casamento (provavelmente pela pressão que lhe caiu), e casar-se novamente, causando constrangimento e indignação. D. Henrique de Castela, no entanto, simplesmente prometeu sua "interessante" filha a D. Carlos III de Navarra. Com isso foram-se as aspirações portuguesas de conseguir controle político sobre a vizinha maior.
Passado o vexame, D. Fernando dedicou-se à política interna, de onde criou resultados que lhe recuperaram a moral. Trouxe ao trabalho no campo muita mão de obra ociosa (apesar de se valer do uso esgotante de terra para isso), criou uma bolsa de seguros marítimos em que todos os comerciantes depositavam compulsoriamente uma parte das rendas para ressarcimento de embarcações que sofressem acidente nas viagens, era a Companhia das Naus. Fez crescer o número de naves e a vinda de comerciantes estrangeiros para Lisboa.
Suas relações externas, pelo contrário, eram das piores, em especial com a gigante Castela. Duas guerras e, ao fim dos conflitos, a promessa de sua filha mais velha a D. Juan I de Castela. Era entregar, caso não houvesse um varão, o trono às mãos castelhanas. E assim ocorreu. Em 1383, morre sem deixar um sucessor homem e inicia-se disputa sangrenta pelo trono. É o interregno (1383-1385).


A Primeira Invasão Castelhana

O casamento com a infanta D. Beatriz de Portugal não conferia ao Rei de Castela o direito à unificação, apenas estaria no trono de dois reinos, sem direito de governar Portugal, sob regência de D. Leonor, a quem o povo odiava por ser estrangeira e por ter desposado o rei, mesmo sendo casada anteriormente.
O conde de Andeiro, dito amante galego da rainha, foi assassinado e ela fugida, pede ajuda ao senhor de Castela.
Surge então a necessidade de se encontrar um nome para liderar os portugueses. Então que surge o nome do mestre da casa de Ávis, D. João, irmão bastardo de D. Fernando, filho de D. Pedro I com D. Teresa, dama Galega (interessante notar que Portugal e Galisa estiveram, nessa época, mais próximos que nunca e D. João chegou a ser aclamado rei por alguns grupos descontentes de galegos sob o domínio de Castela). Destaca-se o papel da enriquecida burguesia portuguesa na revolução, adiantada em séculos ao que se passaria no estrangeiro posteriormente.
Sem ver outra opção, D. Juan I inicia campanha militar e chega aos muros de Lisboa, que haviam sido reforçados por D. Fernando, para seu infortúnio, contanto com 77 torres defensivas. Com o apoio do futuro Condestável e Defensor do Reino, Nuno Álvares Pereira, que atacava a periferia do acampamento inimigo de forma semelhante a guerrilha, consegue-se conter o ataque que vinha por terra e por mar. Os castelhanos viram, pela primeira vez nesse conflito, a derrota em vantagem numérica, com o merecimento de atenção especial à frota reduzida que partiu de Porto e furou o bloqueio castelhano para trazer mantimentos, necessários para superar o cerco.


A Segunda Invasão e a Batalha

Mais inserida no cenário da Guerra dos Cem anos, foi uma luta entre lusitanos e ingleses (com quem Portugal já possuía acordo quanto a permissões de pesca) contra castelhanos e franceses.
D. João e Nuno A. Pereira, que estavam em Tomar (onde ficaram guardadas as heranças dos templários, que em Portugal foram tranformados na Ordem da Cruz de Cristo) decidiram interceptar os 31 mil homens de Castela (6000 lanças, 2000 ginetes, 8000 besteiros e 15000 homens a pé) antes que chegassem a Lisboa, pois viram que se defender de outro cerco talvez fosse catastrófico.
Reuniram forças que, segundo o cronista Fernão Lopes, consistiam em 1700 lanças, 800 besteiros e 4000 homens a pé. Aliaram-se 200 arqueiros ingleses e foram ao encontro que ocorreu perto de Leiria.

Conhecedores do terreno e com uma força menor, porém mais manobrável, os portugueses se posicionaram primeiro, em terreno mais alto e protegidos pela retaguarda e pelos flancos por água e ainda puderam realizar paliçadas protetivas na vanguarda. Posicionaram os besteiros e arqueiros nos flancos, a vanguarda de Nuno Álvares Pereira ao centro, por traz das paliçadas e a retaguarda do mestre de Ávis protegida por cavalaria. É questionável o uso da técnica do quadrado que os portugueses tanto tornaram famosa ao vencer grandes cavalarias castelhanas com um número reduzido de infantarias com lanças, graças a situação em que a batalha ocorreu, mas o fato é que o resultado final foi o mesmo. Para mais informações sobre a técnica do quadrado, ver Atoleiros - Tática do Quadrado.

Mal posicionada entre dois cursos d'água, a numerosa cavalaria lançou um ataque precipitado sobre as paliçadas, com a intenção de evitar o cair noite e foi repelida pela artilharia, conforme sua formação se quebrava nos estreitamentos, antes mesmo de chegar a combate corpo a corpo.
Veio então o ataque da retaguarda castelhana que sofreu muito para chegar ao confronto direto e, ao chegar, viu a formação da vanguarda se abrir para os flancos e a retaguarda avançar pelo centro, causando desordem no ataque e a derrota no cenário principal da batalha.
O rei de Castela ainda contava com duas alas de cavalaria. A ala esquerda ficou neutralizada pela geografia e a direita, que conseguiu tentar dar a volta e atacar pela retaguarda, foi contida pela proteção da cavalaria portuguesa que descia a colina, o que gerava grande vantagem.



















Pela segunda vez no conflito, o excedente numérico não superou a qualidade e a moral de quem defendia a própria terra. A debandada foi total e desorganizada. A cavalaria portuguesa perseguiu e matou quem pôde. Os que se esconderam nas cercanias foram mortos pela população, partidária de João de Ávis. Surgiria até a lenda de uma padeira que matou a pá sete castelhanos que encontrou escondidos em seu forno.
Nuno Álvares Pereira tornou-se um ícone como general na história militar lusitana.
Para comemorar a vitória, foi erguido o Mosteiro da Batalha, onde estão sepultados diversos reis portugueses e é considerado patrimônio mundial pela UNESCO.

Mosteiro da Batalha e estátua de Nuno A. Pereira

Tumba de D. João I

As Consequências
Portugal, em finais de 1385, consolidava sua independência e o orgulho nacional, adquirindo situação que outros países só viveriam após o final da Guerra dos Cem Anos. A forte burguesia se juntava aos recursos deixados pelos cavaleiros templários à Ordem da Cruz de Cristo para financiar grandes empreitadas.
A subida da dinastia de Ávis, a aliança militar com a Inglaterra (primeira aliança desse tipo, concebida no tratado de Windsor) e a aproximação dos reinos com o casamento do Rei com Filipa de Lancaster dariam à luz a Inclícita Geração e o período de ouro da história portuguesa, mas a separação dinástica de Castela não seria suficiente para evitar, um século depois, nova crise sucessória, dessa vez com outro resultado. Isso, todavia, já é assunto para outra postagem.

Atenciosamente.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Dona Aracy - A Lista de Schindler Brasileira

Hoje é Dia Internacional em Memória às Vítimas do Holocausto.
O título da postagem, feito para chamar a atenção, confesso, é uma injustiça. A comparação desmerece a atitude ímpar dessa brasileira.

Não vou entrar no mérito do Holocausto, porque isso é assunto para outro momento, mas fato é que os judeus estavam em situação complicada perante o governo da Alemanha nazista, assumidamente anti-semita. Discorrerei apenas sobre a atitude da esposa do Cônsul do Brasil em Hamburgo, Guimarães Rosa (exato, o escritor de Sertões: Veredas).

A logística do que lhe consagrou como Anjo de Hamburgo era conceder vistos falsos para judeus que tentavam embarcar para o exterior. Como ainda não era casada com Guimarães Rosa, agiu sozinha no princípio. O processo iniciou quando, em 1938, o governo Vargas passou a negar a entrada de judeus no país. A partir de então, os vistos dos judeus, que tinham uma letra "J" para identificação eram negados. Ela, porém, trazia documentos adulterados para a assinatura do Cônsul Geral. Simplesmente era omitida a parte que dizia que os pedidos eram para judeus. A autoridade ratificava os vistos, então, sem saber. O apoio de Guimarães Rosa, na época Cônsul Adjunto, foi que deu início ao romance que terminaria em matrimônio.

Os perigos da descoberta eram iminentes. Quando o Brasil tomou partido dos Aliados, em 1942, a situação ficou crítica. O casal só regressou ao seu país porque entrou num esquema de troca de diplomatas. Foram se casar no exterior, porque ela era divorciada e ainda não era aceito o segundo casamento por aqui.

Mais tarde, ainda veio a esconder em sua casa contra-partidários do regime militar. Já ouviram falar de Geraldo Vandré? pois é...

Seu espírito era defender quem era perseguido sem motivo justo, por forças que considerava opressoras, ao invés de se acovardar e aceitar o sofrimento de quem ela considerava certo. Seu altruísmo lhe rendeu homenagens, principalmente em Israel, por motivos óbvios.

No Brasil, a presidente Dilma Russef participou, HOJE, da primeira homenagem oficial de seu próprio país a essa corajosa e honrada brasileira, que soube diferenciar o legal do certo, agindo contra a lei e a favor de um bem maior: uma sociedade justa.
Infelizmente, como costuma acontecer repetidamente, a homenagem é póstuma, pois ela faleceu em 2011.

Atenciosamente.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Monteiro Lobato - Racismo Anacrônico

Antes de iniciar, gostaria de deixar minha posição a respeito dessa personalidade clara. As idéias de Lobato, quanto à exploração do petróleo e do ferro e o fervor com que tentou fazer algo bom para o Brasil, como abrir uma editora nacional (rara ou inexistente, na época), as críticas à corrupção que publicava sem medo das consequências e a predileção pela literatura infantil (demonstração de zelo pelo futuro do país) são irrefutavelmente admiráveis. Ainda gostaria de dizer que sua obra "História do mundo para as crianças" da coleção do Sítio do Pica-pau Amarelo, foi talvez uma das mais importantes na construção do meu interesse pela história.

O escritor paulista, escritor de obras das de maior qualidade na literatura infantil e famoso por ser um homem a frente de seu tempo também não deixava de ter idéias muito intrínsecas de sua época.

Muitos já devem ter ouvido falar das acusações de racismo referenciadas a ele. Talvez nem todos saibam que correspondências dele com autores eugenistas foram encontradas e seu conteúdo é altamente racista.

A eugenia nada mais é que a famosa teoria da raça pura. Em particular, a eugenia negativa consistia no impedimento da proliferação de genes fracos (como o de deficientes físicos e mentais congênitos), mas não deixa de passar pela predileção étnica. A superioridade racial foi defendida com ares de ciência no início do século XX.

Kehl e Neiva, "cientistas" defensores da Eugenia no Brasil, correspondentes de Lobato, recebiam as cartas em que o escritor defendia a Ku Klux Klan, ressaltava lugares onde a teoria prosperava (por incrível que pareça, o maior deles eram os EUA!!!) e chegava a comparar populações de baianos pobres e mestiços com esterco.

Ante às provas, houve secretarias de saúde que repudiaram TODA sua obra, removendo-a da relação de livros escolares. É como se a simples leitura de uma obra escrita por um racista do início do século fosse contaminar as crianças, talvez com mensagens subliminares e o Nazismo fosse voltar com força total!!!!!!!!
Seja qual foi a autoridade que promoveu essa resolução que, pelo bem, foi revogada, olhou com os olhos de hoje um pensamento do passado e isso é errado, senão perigoso.

O pensamento Anacrônico é o interpretar com os valores de hoje um fato do passado; julgar a atitude tomada por um indivíduo que só sabia o que era da sua realidade à luz de toda a ciência de que dispomos atualmente.

A eugenia, na época, não era uma exclusividade nazista, mas florescia no Estados Unidos, que possuía leis de segregação racial já na década de 50. Nenhum defensor da teoria foi julgado e preso antes disso. Sabe por quê? Porque não era crime.

A moral dos povos não é estanque. É adaptativa e evolui. Só depois do que se viu durante a Segunda Guerra Mundial é que se passou a discutir em âmbito maior e perceber que o racismo é um problema e que deve ser resolvido.

Em defesa a Lobato, após a chegada da propaganda de guerra, que informava sobre atrocidades cometidas pelos alemães, as cartas de conteúdo repudioso cessaram e não surgiu nenhuma outra obra com teor duvidoso. Antes disso, quem leu "Negrinha" não pode acreditar que sua obra está contaminada de nazismo doentio subliminar, pelo contrário, mostra um autor que tenta relativizar a situação, entrando na mente e nas emoções da criança negra.

Enfim, o politicamente correto não pode ser um comportamento de rebanho. A moral e a civilidade é o que nos torna humanos e deve ser o que há de mais elevado em nossas mentes.

Só podemos nos lamentar por seu clamor por valorização da educação, tecnologia, das estradas e da exploração de recursos não terem sido atendidas e comemorar por ele ter recuado de sua defesa da eugenia antes que isso acabasse por destruir seu prestígio, ou pior, que ele conseguisse atrair a atenção de alguma autoridade a endossar o ideal.

Atenciosamente.

28 de janeiro - Roosevelt em Natal

A visita de Roosevelt





Há exatos 70 anos, em 1943, o presidente americano Roosevelt se encontrava com Getúlio Vargas na cidade de Natal, onde se instalou uma base militar americana. Entre outras coisas, negociaram o envio de tropas nacionais para o cenário europeu, broto da idéia da Força Expedicionária Brasileira, que levaria mais de 25 mil soldados para o Sul da Itália. A missão que o trouxe do Marrocos estava munida de várias aeronaves, nada surpreendente para uma nação em estado de guerra.

Ao nascer do Sol do dia 29 de janeiro, Roosevelt já estava embarcado para partir para Trinidad, mas o povo brasileiro só saberia o conteúdo da reunião dos presidentes um dia depois, na coletiva de imprensa, uma vez que a conversação foi mantida em sigilo.

O momento histórico virou tema de livro: 1943 - Roosevelt e Vargas em Natal, de Roberto Muylaert e a população da cidade o tem como fato histórico marcante, de um período em que o Nordeste Brasileiro esteve em evidência no mundo. Vale salientar como a negociação foi importante para a indústria brasileira, que se tornaria uma das poucas a controlar o mercado do aço.

A FEB, porém, só sairia do papel um ano depois e participaria dos momentos finais da investida contra Mussolini e Alemães em território italiano.










Filmes Históricos

Nada melhor para um Amador do Conhecimento que assistir filmes históricos, apesar de ser recomendado olhar crítico e discernimento, principalmente nas películas de Hollywood.

Ai vai uma lista de filmes legais de filmes que eu já assisti. Não se assuste se não vir o nome de obras como "Coração Valente" e "Joana D`arc". Mesmo ciente de que cinema não é documentário e que a carga emotiva e a criação de heróis é necessária na sétima arte, usei como critério para a seleção a verossimilhança e o conteúdo, além da qualidade.

Ai vai a lista inicial, sugiram outros para completar:






A Missão (1986)
Com Robert Deniro, o filme é indicado pelo vaticano. Mostra uma época marcante da colonização do Brasil pouco divulgada. Quebradas as barreira do Tratado de Tordesilha, após o período da União Ibérica, Portugal e Espanha disputam posse das terras próximas a região atual de Foz do Iguaçu. Uma das cenas mais marcantes é de eclesiásticos no vaticano discutindo sobre a humanidade ou não de um menino nativo.















1492: A Conquista do Paraíso (1992)
Com Gerard Depardieu no papel de Colombo, mostra que o mundo já era sabidamente redondo e a discussão era, na verdade, acerca do tamanho da sua circunferência. Mostra também que Colombo soube, em dado momento, que não chegara às índias e o declínio do seu prestígio veio da má administração das terras que lhe foram concedidas. Atenção para a trilha sonora marcante.












A Guerra do Fogo (1981)
Acho que o único da lista que não é baseado em fatos históricos, mas que merece atenção. Uma tribo luta para manter uma fonte de fogo que possui, até descobrirem outro povo que consegue controlá-lo. Gosto de associar essa manutenção da chama vital com a tradição de vários povos antigos de designar sacerdotes para guardar uma chama acesa em teplos para diversos deuses, que pode ter surgido de um costume semelhante. A chama não poderia ser apagada ou traria mau agouro, no caso dos pré-históricos do filme, Muito mau agouro.













Os Treza Dias que Abalaram o Mundo (2000)
Com Kevin Kostner. Mostra a tensão do momento em que a humanidade esteve mais perto de iniciar uma guerra nuclear. A pressão de militares que poderiam se beneficiar de um evento desse porte e uma idéia do que poderia se passar pela cabeça de um presidente nessa situação.















O Discurso do Rei (2010)
Com Colin Firth e Geoffrey Rush, ambos espetaculares no filme. Mostra a superação de um rei gago em frente a uma nação que entraria em guerra, obrigado a dizer as palavras que o povo precisa ouvir em um tempo em que isso poderia fazer a diferença. E dizem que não saem mais filmes bons...















A Outra (2008)
As musas Scarlett Johansson e Natalie Portman no papel das irmãs Bolena. Não sei dizer se os fatos históricos estão precisos, mas a importância histórica do momento vale a indicação. O romance resultou nada mais, nada menos do que na criação da Igreja Anglicana e a saída da Inglaterra da esfera de influência papal.















Amistad (1997)
Morgan Freeman, Antony Hopkins e por aí vai. Mostra a situação de futuros escravos que se amotinaram num navio negreiro e foram parar na corte americana. Tirando a sátira à imagem da realeza latina, tudo perfeito. Acredito que a sorte desses africanos foi de terem parado nos EUA, se viessem para o Brasil alienado da época, o medo faria com que fossem entregues aos espanhois.















Carlota Joaquina, Princesa do Brasil (1994)
Marieta Severo e Marco Nanini. A sátira da nobreza afasta a obra da realidade, mas não poderia ser deixada de fora da lista pela importância que a família real em terras brasileiras teve para o nosso país. A situação dos migrantes nas embarcações durante a viagem foi uma das cenas que mais marcou, para mim.














Guerra de Canudos (1997)
Nem vou entrar no quesito elenco. Sou defensor da qualidade dos atores brasileiros e acredito que falta reconhecimento para o que é nacional. Apesar de, ainda assim, recomendar o livro "Sertões" de Euclides da Cunha, é necessário colocar na lista a atitude da república frente aos monarquistas, que em nada se diferenciou da imperial frente aos republicanos nos farrapos, por exemplo. Afinal, no Brasil a impressão que sempre fica é que as revoluções acontecem e nada muda.








Vou parar por aqui. Devem haver muitos outros que mereciam ser citados, e posso até atualizar a postagem com sugestões, mas por enquanto é isso.
Atenciosamente.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Sicília

Como nossos ascendentes não podem ser ignorados, como fazemos ao venerar mitologias estrangeiras em filmes de fantasia e quando assistimos a documentários sobre batalhas que não interferiram em nada na nossa condição de dominados, ora por um, ora por outro, devo discorrer sobre a terra natal de meus antepassados: a Itália. Mais precisamente da região de onde veio sua maioria: a Sicília.



Não apenas por obrigação, mas pelo interesse que disperta essa ilha, separada da Itália por apenas 3 quilômetros, pelo Estreito de Messina, chave para qualquer um que queira ter o domínio sobre o Mediterrâneo. Graças a esse fato, a história das civilizações mediterrâneas pode ser encontrada na história da Sicília. Seu povo de fama rude tem motivos para tanto, pois essa história consiste, como sempre, na guerra e invasões de muitos povos, o que causou a xenofobia típica, principalmente nos lugares mais pitorescos da formosa e rochosa ilha.

Primeiros Povos
Inicialmente colonizada por Sicanos, Emílios e Sículos há tanto tempo que pouco se sabe sobre as reais circunstâncias desse período. Mais tarde, chegaram os Fenícios no Oeste, trazendo o início da tradição de comércio no litoral; depois os Gregos a Leste e Sul, que fundaram Siracusa, importante cidade comercial e capital por longo período.

Primeiros Invasores
O primeiro período de guerras organizadas foi entre gregos e cartagineses. Ao final, Cartago transformou a ilha em uma das regiões mais importantes do império.
Depois chegaram romanos. Empreendendo as Guerras Púnicas, conseguiram conquistar a Sicília, que continuou tendo grande importância comercial e como produtora de trigo. As Guerras Púnicas voltaram a acontecer e, durante todo o tempo em que Cartago teve força, houve muitos ataques ao litoral.
Durante o declínio de Roma, a ilha parecia protegida ali, na ponta da bota e cercada de água, uma vez que os povos bárbaros não tinham tradição no mar. Mas após sua expulsão da Península Ibérica, os Vândalos entraram pela África, tomando todo o Norte até Cartago, de onde partiram para formar, sob o camando de Genserico, um reino bárbaro no local.

Outros bárbaros, os Ostrogodos, depois de tomarem a Península Itálica, dominaram a Sicília Vândala. O último bastião dos Vândalos foi Lilibeo (Atual Trapani, sobrenome de minha avó paterna, por sinal). Anos depois, Justiniano, Imperador de Bizâncio, na sua tentativa de recuperar o Império Romano da antiguidade, dominou a ilha depois de longo conflito. A primeira invasão, rápida, usou de 15 mil homens, mas os ostrogodos conseguiram um contra-ataque, sendo necessário uma segunda ofensiva, de surpresa, pelo Norte.

Dominada pelos ortodoxos bizantinos, foi atacada pelos Muçulmanos Fatimidas, que tomaram várias cidades, subjugando a população ortodoxa e trazendo ao poder uma minoria islâmica no Emirado da Sicília. Os bizantinos ainda tentariam retomar a ilha e chegaram a invadir a capital, mas não foi o suficiente e recuaram.
Os Sarracenos continuaram a exercer seu domínio por dois séculos, nada ruim para a região, já que na época a cristandade passava por uma época conturbada, enquanto o islã florescia, até a chegada dos Normandos, tradicionais mercenários que, enriquecidos e politicamente fortalecidos, estabeleceram bases suficientes para uma campanha de conquista da Sicília. Com sua chegada, a conversão em massa para o catolicismo apostólico e o retorno da cultura latina ocorreram.

Então entra um período de conquista política, não militar. Quando o soberano do Sacro Império Romano Germânico, casado com a filha do rei da Sicília, tomou posse após a morte do rei. A ilha passou não só a integrar o Sacro Império, mas a figurar entre os principais reinos que o formavam. Já no século XIII, brotava uma ar de renascença e os domínios territoriais se estenderam para o Sul da Itália.

Com o fim da dinastia dos Hohenstaufen, o papa deu o domínio das terras a Carlos I, francês Angevino. Mas revoltas eclodiram nas cidades que buscaram apoio estrangeiro, principalmente em Aragão, cujo rei Pedro III possuía laços com os suábidas. Mais uma vez se fez necessário o conflito armado. Foi então que iniciou-se o período de domínio aragonês, que depois veio a se tornar um domínio dos Habsburgos, por questão de sucessão. Nesse meio tempo, os Piemonteses de Sabóia tiveram um curto período de posse da ilha.

Napoleão invadiu Nápoles, na época, indistinta da Sicília (Reino das Duas Sicílias), que voltou a se unir sob a coroa da Sicília após o Congresso de Viena (1815).

A agitação voltaria em breve, durante as guerras da Unificação Italiana, com as tropas de Garibaldi invadindo o território insular. Um plebiscito a tornou parte do Reino da Itália. Depois disso veio um período decadente, motivo das migrações que trouxeram muitos para o Brasil, Argentina e Estados Unidos.



Aqui vale um adendo: A obra de Giovanni Verga "os Malavoglia" retrata a época da segunda metade do século XIX de forma esplendorosa, num romance que lembra as escolas realista e naturalista da literatura brasileira (Machado de Assis e Aluísio Azevedo) e nos faz pensar na situação econômica e social que levou o povo siciliano a migrar em massa para, principalmente, Brasil e Estados Unidos. Essa obra foi reeditada em 2013 pela Abril, numa coleção de clássicos da literatura. A edição vem com muitas notas do autor interessantes.



O século XX
Vieram as Guerras Mundiais do século XX, e foi pelo Sul da Itália que chegaram os Pracinhas brasileiros para combater o Facismo, muitos deles descendentes de italianos que tiveram ali a oportunidade de ver de onde vieram seus pais e avós. Depois, obviamente destruída, a Sicília viveu o oportunismo de famílias mafiosas diante da crise que se instalara. A máfia foi teoricamente derrotada, sendo que o "último mafioso" foi encontrado escondido no Brasil (refúgio de todo tipo de vilão internacional) e hoje a Sicília é um Território Autônomo da Itália. Essa separação histórica tem sido motivo de muito preconceito interno contra os cidadãos da região e tem imposto barreiras para os descendentes que procuram a cidadania italiana como Oriundi com ascendentes do Sul.

Enfim, tudo que acontecia na Europa refletia nessa ilha cheia de história que merece apreço maior de todos os amadores do conhecimento.